História

A memória de ensinar: objetos, práticas e afetos da Fisiologia na FURG.

 

Por Camila de Moura Ribeiro e Carla Gonçalves

 

            No dia 08 de abril de 2026, a série de reportagens Afetos Científicos reuniu docentes da matéria de Fisiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da FURG para resgatar as memórias, trajetórias acadêmicas e os laços sentimentais que unem esses servidores à sua profissão. O encontro contou com a participação de pessoas marcantes do setor: o professor Duane Fonseca, que iniciou seu contato com a área como ouvinte na pós-graduação e hoje soma 18 anos de docência efetiva, com Fisiologia Humana e Animal; a professora Isabel Soares Chaves, ex-aluna da Biologia Licenciatura da FURG e docente de Fisiologia Humana há 13 anos; o professor Fabio Everton Maciel, cuja formação é inteiramente furguiana, desde os tempos de graduação na Oceanologia até assumir a vaga docente em 2011, em Fisiologia Animal Comparada; a professora Priscila Aikawa, docente associada há 12 anos que, com sua formação em Fisioterapia, tem um olhar dedicado à área da saúde e ao cuidado com a vida; a professora Carla Amorim Neves Gonçalves, que iniciou sua história na FURG como estudante de Ciências Biológicas Licenciatura em 1991, e desde 2003 atua com fisiologia humana e animal. Com trajetórias que atravessam diferentes momentos da história institucional, os professores Adalto Bianchini e Pablo Elias Martínez também compartilharam suas memórias: Adalto, com trinta e sete anos dedicados à área, foi diretor do Instituto por oito anos e  idealizador do curso de Tecnologia em Toxicologia Ambiental; Pablo, argentino de origem e formado em Medicina Veterinária, ingressou na FURG na década de 1990 e acumula 32 anos de docência na universidade.

            Ao serem questionados sobre os patrimônios científicos materiais do setor, os docentes abriram um baú de memórias sobre tecnologias que antigamente ditaram o ritmo dos laboratórios. Entre as relíquias mencionadas, destacam-se os antigos contadores de células feitos de metal, no passado essenciais para a quantificação de células sanguíneas ao microscópio e que hoje despertam risadas nos estudantes mais jovens. Fotos antigas das aulas, das festas do ex-departamento de Ciências Fisiológicas, foram lembradas como testemunhos em papel quadrado e bordas arredondadas. O professor Adalto relembrou com orgulho a preservação de transparências, e dos slides coloridos do Ciclo de Krebs utilizados em seu concurso de professor titular. Outra peça de grande valor histórico e pedagógico citada pelo professor Pablo foi a bomba pneumática de respiração artificial mecânica, utilizada nas antigas aulas práticas antes das mudanças na legislação para uso de animais. Atualmente, grande parte desse acervo histórico encontra-se salvaguardada no Museu Virtual do Ensino de Ciências Fisiológicas, e aberta a visitação, no pavilhão 6 do Campus Carreiros.

            Por fim, os entrevistados participaram do exercício hipotético de escolher um único item a ser preservado para a história caso o ensino e a pesquisa passassem por uma mudança radical, revelando a essência de suas paixões. O professor Duane Fonseca elegeu o livro físico, destacando o clássico Schmidt-Nielsen, do qual o setor orgulha-se de ter uma cópia autografada pelo próprio autor, como um símbolo de resistência na era digital. Sob uma ótica mais acessível, a professora Priscila Aikawa escolheria salvaguardar um manequim de baixo custo feito com materiais recicláveis, utilizado em suas ações de extensão para treinar ressuscitação cardiopulmonar. Já o professor Pablo Martínez guardaria os roteiros impressos de aulas práticas, endossando a visão do professor Fábio Martial de que, independentemente do método, o sucesso da ciência reside em estimular o estudante a pensar. Por fim, a professora Carla garantiu que não deixaria partir o antigo fisiógrafo (polígrafo), peça que, junto ao giz, aos roteiros e ao "tapapó", como antigamente se chamava o jaleco, completaria a memória viva de uma sala de aula de Fisiologia na FURG.

 

Quer saber mais? O MUVIe reúne memoriais e outros registros da memória das Ciências Fisiológicas da FURG, incluindo todos os equipamentos e objetos citados nesta entrevista. Visite nosso espaço físico no Pavilhão 6 do Campus Carreiros, acesse a página do MUVIe e nossas redes e conheça mais dessas histórias.

 

 

REGISTRO FOTOGRÁFICO DA REPORTAGEM:

Descrição da imagem: Captura de tela de uma reunião virtual realizada por videochamada, contendo oito quadrantes dispostos em três fileiras. Na primeira fileira, aparecem os participantes Pablo Elias Martinez, Priscila Aikawa e Carla Gonçalves. Na segunda fileira, estão Fábio Everton Maciel, Isabel Sch e Duane Fonseca. Na terceira e última fileira, aparecem Adalto Bianchini e a repórter Camila Ribeiro. Todos os participantes que estão com a câmera aberta aparecem sorrindo em ambientes domésticos ou de escritório.

 

 

 

 

Trecho ou questão

Minha avaliação

Encaminhamento

Título

Não explicita suficientemente a dimensão do ensino.

Substituir por um título que articule ensino, memória e afetos.

Primeiro parágrafo

Apresentação extensa dos entrevistados.

Reduzir a densidade informativa sem eliminar dados relevantes para a memória institucional.

"Fotos antigas das aulas, das festas do ex-departamento de Ciências Fisiológicas"

Construção sintática pouco fluida.

Ajustar a pontuação e a organização da frase.

"transparências, e dos slides coloridos"

Uso desnecessário da vírgula antes de "e".

Corrigir diretamente.

"atualmente grande parte desse acervo histórico encontra-se salvaguardada no Museu"

A informação é relevante, mas precisa refletir o acervo efetivamente preservado.

Conferir o alcance da afirmação.

"antes das mudanças na legislação para uso de animais"

A relação histórica pode ser interpretada como causal.

Conferir a formulação na entrevista integral.

"professor Fábio Martial"

Divergência em relação ao nome apresentado no início.

Conferir a identificação do entrevistado.

"a professora Carla garantiu que não deixaria partir"

Formulação afetiva, adequada ao projeto, mas que merece conferência.

Preservar se corresponder ao depoimento.

"incluindo todos os equipamentos e objetos citados nesta entrevista"

Afirmação abrangente sobre o acervo do MUVIe.

Confirmar se todos os objetos mencionados estão efetivamente reunidos ou documentados pelo museu.

 

 

 


 

Farmacologia da FURG: uma história construída entre ciência, ensino e afetos

Por Amanda Contreira Ferreira e Carla Gonçalves

 

A história da Farmacologia na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) é resultado do trabalho de professores, técnicos e estudantes que, ao longo de décadas, ajudaram a construir uma área marcada pela integração entre ensino, pesquisa e extensão. As memórias compartilhadas pelos professores Fernando Amarante Silva, Eli Sinnott Silva, Cristiane Barros Marcos e pela técnica Seiko Nomiyama mostram que a ciência vai muito além dos laboratórios: também é feita pelas pessoas, pelos espaços, pelos materiais e pelas experiências que permanecem vivas na memória de quem ajudou a construir essa trajetória.

A história começa em 1969, quando Fernando e Eli chegaram à então Faculdade de Medicina. Segundo Fernando, encontrou as gavetas da Farmacologia completamente vazias. Não havia roteiros de aulas práticas e eles sequer sabiam exatamente o que havia sido ensinado aos estudantes anteriormente. Foi preciso, portanto, construir a disciplina praticamente do zero.

Os dois passaram a elaborar os roteiros das aulas práticas com base na bibliografia e na formação que Fernando havia realizado em Farmacologia no Rio de Janeiro. As aulas práticas também foram implantadas em Pelotas. “1969 foi um ano extremamente difícil para nós”, relembra Fernando. “Criando tudo, tudo, tudo, tudo. Nada existia.”

Em 1970, a professora Beatriz Tejada de Oliveira passou a integrar a equipe. Fernando recorda que os três, junto com Eli, preparavam as aulas teóricas e práticas. Ao longo dos anos, outros professores passaram pela disciplina, contribuindo para sua continuidade. Entre eles, Fernando destaca Gelmer Alexandre Vargas, cuja atuação esteve ligada à realização de cursos e atividades de extensão, com a participação de profissionais convidados de outras instituições.

A pesquisa também fazia parte dessa trajetória. Eli lembra que ela e Fernando trabalharam principalmente com produtos naturais e procuravam levar para as aulas práticas os conhecimentos e as experiências desenvolvidos nas pesquisas. Para ela, essa relação entre pesquisa e ensino também contribuiu para estimular estudantes a continuar seus caminhos na investigação científica.

Outro capítulo dessa história é o CENPRE – Centro Regional de Estudos, Prevenção e Recuperação de Dependentes Químicos, que surgiu a partir das iniciativas desenvolvidas na área de Farmacologia relacionadas à prevenção da dependência química. O trabalho envolveu diferentes setores e pessoas da universidade e resultou em atividades de pesquisa, cursos, palestras e materiais educativos. Fernando lembra ainda de projetos que receberam financiamentos em diferentes níveis e possibilitaram a realização de ações no Brasil e em outros países da América do Sul.

Foi também por meio do CENPRE que Cristiane Barros Marcos teve um de seus primeiros contatos com a Farmacologia na FURG. Ao telefone, Fernando contou a ela sobre o trabalho desenvolvido no Centro e, posteriormente, durante uma conversa presencial, apresentou as possibilidades de atuação. A experiência contribuiu para sua decisão de permanecer na universidade. “Quando eu vi que não era só um trabalho, tinha um mundo aqui”, lembra Cristiane.

Para os entrevistados, preservar essa história significa cuidar de diferentes tipos de patrimônio. Entre os materiais lembrados estão os roteiros das aulas práticas, equipamentos utilizados no ensino e na pesquisa, livros, fotografias, caixas de slides, folders produzidos pelo CENPRE, vídeos, banners e outros registros das atividades desenvolvidas ao longo dos anos. Fernando também recorda uma coleção de medicamentos antigos que teria sido recuperada quando uma farmácia localizada em frente à Praça Tamandaré foi fechada. Como a própria entrevista indica que parte desses materiais ainda precisa ser localizada, o registro dessa coleção permanece também como uma tarefa de preservação.

A técnica Seiko acompanha parte desse trabalho de preservação e relata que muitos materiais continuam guardados, mesmo diante das mudanças de espaços. Entre eles estão livros, fotografias, folhetos, equipamentos antigos, projetores, filmadoras e as caixas de slides mencionadas por Cristiane. Para ela, esses objetos não devem ser vistos apenas como materiais que deixaram de ser utilizados. “Isso faz história”, afirma, ao falar sobre as pequenas caixas de slides.

A própria estante que guarda parte desses materiais ganhou significado na conversa. Para Seiko, trata-se de um móvel simbólico, que reúne livros e objetos relacionados à história da Farmacologia e do CENPRE. A entrevista também recupera a lembrança de uma cadeira giratória existente no CENPRE, associada por Fernando aos primeiros espaços de trabalho da Farmacologia.

A memória dessa construção também passa pelas pessoas. Fernando destaca a atuação de laboratoristas e colaboradores que participaram do cotidiano da disciplina. Entre essas lembranças está Laura Oyazarbal Rivera, laboratorista que trabalhou com a equipe em atividades de ensino e pesquisa, especialmente nos experimentos de perfusão de vasos mesentéricos. Fernando recorda sua experiência e sua memória visual, que lhe permitiam preparar os materiais necessários para as atividades práticas.

Quando convidados a escolher aquilo que para si representava a Farmacologia, Fernando lembrou os roteiros das aulas práticas; Eli, a logomarca do CENPRE; Cristiane destacou os slides e vídeos e o livro que registra a trajetória de Fernando e Eli; e Seiko, a estante com memórias que existe no Centro. Diferentes escolhas, mas uma mesma compreensão de que a história também permanece naquilo que atravessa o tempo e guarda as marcas de quem a construiu.

Ao falar sobre a preservação desse patrimônio, Seiko sintetiza uma ideia que atravessa toda a entrevista: “A gente é uma construção, sempre”. Guardar roteiros, equipamentos, livros, fotografias e outros registros significa, nesse sentido, preservar também as pessoas, os conhecimentos e as relações que fizeram parte da trajetória da Farmacologia na FURG.

Quer saber mais? Conheça a página www.cenpre.furg.br e visite a página do MUVIe para outras entrevistas sobre os Afetos Científicos do ICB.

 

 

Mini Projetor utilizado pelo professor Fernando Amarante e professora Eli Silva.

Armário Estante com livros e apostilas mencionados pelo professor Fernando e técnica Seiko.

Cadeira Giratória menciona pelo professor Fernando.

Logomarca do CENPRE, escolhida como representativa da Farmacologia pela professora Eli Sinnot Silva.

Livro Fernando e Eli: 70 anos de ciência e muito amor, de Oswaldo José de Paula Barbosa, mencionado pela professora Cristiane Marcos.

Caixa de Slides mencionada pela professora Cristiane.

 

 

 

 


 

Entre microscópios, memórias e genética: os afetos científicos guardados no ICB

Por Brunno Voigt Rodrigues e Carla Gonçalves

 

Nos laboratórios, a ciência também se constrói a partir de objetos que atravessam o tempo. Alguns continuam em uso, outros são substituídos por tecnologias mais modernas, e há ainda aqueles que permanecem guardados, quase esquecidos, mas carregados de histórias. Na Genética do Instituto de Ciências Biológicas da FURG, parte dessa memória afetiva está presente em equipamentos, instrumentos e objetos que acompanharam diferentes momentos do fazer científico de estudantes, técnicos e professores.

Entre esses objetos, um microscópio antigo ocupa lugar especial. Para quem o observa rapidamente, ele poderia parecer apenas um equipamento ultrapassado, substituído por tecnologias mais modernas. No entanto, para a professora Adriana Gava, ele representa muito mais do que uma peça antiga de laboratório. O microscópio remete à sua formação, às aulas de Biologia, ao desejo de observar estruturas invisíveis a olho nu e ao encantamento produzido pelo contato com o mundo microscópico. Antes mesmo de se tornar pesquisadora, a relação com esse instrumento já carregava curiosidade, expectativa e afeto.

Essa lembrança mostra que os equipamentos científicos não são apenas ferramentas técnicas. Eles também participam da formação dos pesquisadores. Um microscópio, por exemplo, não serve somente para ampliar uma imagem. Ele amplia também uma forma de olhar. Ensina o estudante a prestar atenção nos detalhes, a interpretar estruturas, a comparar formas, a transformar observações em perguntas. Por isso, quando Adriana viu um microscópio semelhante exposto em um museu da UFRGS, a lembrança foi emocional. Aquele equipamento despertou memórias de aprendizagem e reforçou a vontade de recuperar e dar visibilidade ao microscópio antigo da Genética da FURG.

A história material da Genética no ICB também passa por outros equipamentos que acompanharam diferentes fases do laboratório. Quando Adriana chegou à universidade, em 2003, o espaço ainda guardava instrumentos de uso anterior, como estufas, microscópios, equipamentos de fotografia e materiais ligados à revelação de imagens. Havia, inclusive, uma sala escura, utilizada para revelar filmes obtidos em microscópios com câmera acoplada. Hoje, em um tempo marcado por imagens digitais e equipamentos automatizados, esse tipo de prática pode parecer distante. Mas ela revela uma maneira de fazer ciência que exigia outro ritmo, outro cuidado e outra relação com o material produzido.

A sala escura, nesse sentido, também pode ser pensada como um espaço de afeto científico. Ela fazia parte de uma etapa em que a imagem não aparecia imediatamente na tela de um computador. Era preciso preparar, fotografar, revelar, esperar e conferir o resultado. Cada registro dependia do domínio técnico, da paciência e da experiência de quem manipulava os equipamentos. O processo era mais demorado, mas também construía uma relação muito próxima entre pesquisador, instrumento e resultado. A imagem científica não surgia sozinha: ela era produzida por um conjunto de gestos, práticas e saberes acumulados.

Muitos desses materiais, vistos fora de contexto, poderiam ser chamados de “velharias”. No entanto, dentro da memória do laboratório, eles carregam outro significado. Uma estufa antiga, uma câmera acoplada ao microscópio ou um aparelho que já não é mais utilizado não representam apenas tecnologias superadas. Eles indicam modos de trabalho, fases da pesquisa, limitações enfrentadas e soluções encontradas. Também lembram que a ciência não se faz apenas com grandes descobertas, mas com rotinas: ligar equipamentos, preparar materiais, repetir procedimentos, ajustar protocolos, cuidar do laboratório e ensinar outras pessoas a fazer o mesmo.

Com o passar dos anos, a Genética na FURG passou por transformações importantes. Professor Ralf Kersanach e professora Adriana lembram que novos projetos possibilitaram a aquisição de equipamentos mais modernos, como centrífugas, termocicladores e outros instrumentos que ampliaram as possibilidades de pesquisa. Esses equipamentos modificaram a rotina do laboratório e acompanharam as mudanças da própria Genética enquanto área científica. A chegada de novas tecnologias permitiu que determinadas etapas fossem realizadas com mais precisão, rapidez e controle.

A memória do laboratório, entretanto, não está apenas nos equipamentos. Adriana também recorda documentos, fotografias e objetos que ajudam a reconstruir essa trajetória. Entre eles estão fotografias antigas encontradas em materiais deixados pelo professor Guassenir Gonçalves Born, nas quais aparece uma antiga autoclave que ainda existe no laboratório. Há também a lembrança de uma balança de tubos de ensaio utilizada no passado e de equipamentos de centrifugação que marcaram diferentes momentos da pesquisa em Genética e Biologia Molecular.

Entre as pessoas que ajudam a contar essa história, Guassenir ocupa um lugar especial. Quando Adriana chegou à FURG, ele era professor da Genética e trabalhava com citogenética de peixes, tendo desenvolvido seu doutorado nessa área e pesquisado Hoplias malabaricus, a traíra. Adriana lembra das conversas sobre ciência e sobre os conteúdos da disciplina, da construção conjunta de exercícios e das aprendizagens que teve com ele. Sua presença também permanece em objetos, documentos e lembranças que atravessaram a história do laboratório.

Outras pessoas também participaram dessa trajetória, formando uma linha de servidores que ajudaram a construir a Genética no ICB: Guassenir Gonçalves Born, as técnicas de laboratório Mara Cristina Feltrin Dias Lopes, Bruna Felix da Silva Nornberg e Loraine Neves Moraes, o técnico Diego Moreira de Souza, além das ex-professoras Lisandra Jaqueline Robe, Gabriela Pasqualin entre outros servidores ao longo dos anos. Para Adriana, é justamente essa possibilidade de rememorar as histórias que dá sentido a um projeto como o Afetos Científicos. A memória da área não está somente nos resultados das pesquisas ou nos equipamentos que permaneceram, mas também nas pessoas que ensinaram, aprenderam, trabalharam e ajudaram a construir o laboratório ao longo do tempo.

Ainda assim, os equipamentos antigos não perdem sua importância diante dos novos, mas contam uma história de continuidade e transformação. Cada um deles corresponde a um momento do laboratório, a uma forma de produzir dados, a um conjunto de pessoas que os utilizaram e a perguntas científicas que só puderam ser investigadas por que esses instrumentos estavam ali. Eles carregam marcas de uso, de aprendizagem e de convivência e ajudam a contar uma história que não aparece apenas nos resultados das pesquisas, mas também nos gestos cotidianos do laboratório.

O microscópio lembrado por Adriana é um desses objetos que podem voltar a ocupar um lugar visível nessa história. Uma futura exposição no MUVIe poderá ser uma possibilidade de dar visibilidade a esse testemunho material da Genética, recuperando não apenas um equipamento, mas também as memórias que ele carrega.

Quer saber mais? O MUVIe reúne memoriais e outros registros da memória das Ciências Fisiológicas da FURG. Visite nosso espaço físico no Pavilhão 6 do Campus Carreiros, acesse a página do MUVIe e nossas redes e conheça mais dessas histórias.

Registros afetivos: Microscópio óptico de laboratório Carl Zeiss Jena Jenamed 2 e Professores da matéria Genética Dra Adriana Gava e Dr Ralf Kesarnach.

   
   
   
   

O cadastro deste bem na FURG descreve como Microscópio de rotina nr. 359767 - Variant – CEDATE (Centro de Equipamentos e Materiais Didáticos, antigo órgão do Ministério da Educação (MEC) responsável por fornecer e distribuir kits de laboratório, materiais didáticos e microscópios para escolas públicas e universidades brasileiras.

 

 


 

Luz, Polimerase e Memórias: O Legado de Duas Décadas de Docência do Professor Carlos Eduardo da Rosa

Por Anry Moraes de Avila e Carla Gonçalves

 

A ciência é feita de caminhos cruzados, escolhas inesperadas e afetos que resistem ao tempo. Para inaugurar a série de reportagens do projeto Afetos Científicos do ICB: cartografias do pertencer e trilhas da memória institucional, mergulhamos na trajetória do professor Carlos Eduardo da Rosa, carinhosamente conhecido como Nino. Com uma atuação que já soma quase 20 anos de docência na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) — sendo 16 deles como professor efetivo —, Nino compartilha como pequenos acasos moldaram sua paixão pela Bioquímica e quais são os elos físicos e humanos que sustentam sua memória no Instituto de Ciências Biológicas (ICB).

A relação do professor Nino com a Bioquímica começou de forma inusitada ainda durante a sua graduação. Atraído pela disciplina de Fisiologia Animal Comparada, ministrada pelo estimado professor Danilo Wilhelm Filho, Nino interessou-se pelos estudos com enzimas antioxidantes. Esse entusiasmo o levou a buscar um estágio no grupo de pesquisa do professor Danilo. Contudo, foi sob a orientação direta do professor Carlos Soares, pesquisador de Bioquímica vinculado à Medicina na época, que Nino de fato mergulhou na área. Trabalhando com a caracterização de proteínas do sangue de peixes, ele passou a se identificar cada vez mais com a Bioquímica. A aproximação com a área consolidou-se quando ingressou no mestrado e no doutorado e começou a dar aulas como professor substituto na disciplina, dando início a duas décadas de dedicação ao ensino e à pesquisa. Mesmo seguindo sua trajetória na Bioquímica, Nino conta que continua gostando também da fisiologia animal.

Ao refletir sobre a preservação da memória institucional, o professor aponta uma realidade da Bioquímica: não conhece uma coleção física própria da disciplina ou um acervo especificamente organizado para preservar sua história. Para Nino, parte importante dessa memória está nas pessoas e nos relatos de quem ajudou a construir a matéria no ICB. Nesse sentido, o Museu Virtual do Ensino de Ciências Fisiológicas da FURG (MUVIe) também constitui um espaço de preservação que pode abarcar diferentes testemunhos materiais relacionados às áreas do Instituto.

Entre os “testemunhos de memória” da Bioquímica, Nino aponta pessoas que podem ajudar a reconstruir essa trajetória: o professor Hilário da Rosa Martins, atualmente aposentado, que era o docente mais antigo da área quando Nino ingressou na universidade ainda como estudante de pós-graduação. Naquela época os professores José Maria Monserrat e Luis Fernando Marins e o técnico Ricardo Rodrigues integravam a Bioquímica. Nino menciona ainda Juliano Zanette e Juliane Ventura Lima, que vivenciavam aquele momento como estudante de pós-graduação e estagiária de graduação, respectivamente, hoje também professores da matéria. Para Nino, são essas pessoas, suas lembranças e os relatos sobre o caminho percorrido pela disciplina que ajudam a preservar a história da Bioquímica no ICB.

 

Mesmo sem uma coleção física organizada especificamente para a disciplina, a tecnologia e a prática laboratorial deixaram marcas materiais na história da Bioquímica. Questionado sobre qual objeto preservaria para a história caso o ensino e a pesquisa passassem por uma transformação radical, o professor Nino elegeu dois grandes marcos de afeto científico que dividem espaço no laboratório. O primeiro deles é um espectrofotômetro muito antigo, herdado de sua época de mestrado. Embora antigo, o equipamento continua em pleno funcionamento e é considerado um patrimônio coletivo, tendo sido utilizado por praticamente todos os docentes, pós-graduandos e alunos de graduação em análises enzimáticas. Para Nino, sua importância também está na trajetória que carrega: boa parte da produção da área passou por aquele equipamento.

O segundo item escolhido é a máquina de PCR (Reação em Cadeia da Polimerase), instalada na sala do professor Luiz Fernando. Esse equipamento, trazido originalmente do laboratório do professor José Alberto Levy Sabaj, do Instituto de Oceanografia (I.O.) — que teve papel importante na orientação de Luis Fernando —, tornou-se um importante marco de outra vertente que se desenvolveu na área: a biologia molecular. Juntos, o espectrofotômetro e a máquina de PCR representam dois importantes marcos da Bioquímica no ICB, unindo o ensino prático à pesquisa e registrando o trajeto percorrido por docentes e estudantes que, através da ciência, deixaram ali suas próprias histórias.

Quer saber mais? O MUVIe reúne memoriais e outros registros da memória das Ciências Fisiológicas da FURG, incluindo uma máquina de PCR doada pelo professor Luis Fernando Marins, da Bioquímica. Visite nosso espaço físico no Pavilhão 6 do Campus Carreiros, acesse a página do MUVIe e nossas redes e conheça mais dessas histórias.

 

 

Foto: Espectrofotômetro do Laboratório de Bioquímica Funcional, ainda operante, que acompanhou gerações de trabalhos de pós-graduação e ensino.

 

 


 

Memória e Curadoria de Memoriais de professores Titulares da FURG

 

Desde 2013 nas Universidades Públicas Brasileiras, os professores e professoras podem ascender na carreira do magistério público para a classe E denominada Professor Titular.

No passado, o professor Titular, detinha o território de sua cátedra, ou disciplina, sendo denominado também de Professor Catedrático. Era considerado o chefe máximo de sua área. Deveria conduzir e ensinar os “novos professores”. Estes só poderiam ascender a essa categoria quando da vacância (por morte ou aposentadoria) do professor titular.

Numa última alteração do plano de carreira do magistério superior, os professores da última categoria adquiriram o direito de progredir à classe de professor titular.

Um dos requisitos é a defesa de um Memorial. O memorial traz a descrição das atividades de ensino, pesquisa, extensão, gestão acadêmica e produção profissional relevante.

Nesse momento me encontro escrevendo meu memorial e tive curiosidade de ler os memoriais de alguns colegas, a título de aprendizagem com aqueles que vieram antes, e de inspiração para vencer a inércia da folha em branco.

Como trabalho com salvaguarda da memória das Ciências Fisiológicas na FURG, me ocorreu a ideia de criar um espaço de memória e curadoria dos memorais.

São textos riquíssimos cuja leitura nos aproxima novamente do espírito original do que era o professor titular, aquele que guiava e inspirava os mais jovens.

Não apenas pelo exemplo profissional de sua caminhada no ensino, na pesquisa, na extensão e na administração superior, mas pela vulnerabilidade de suas histórias humanas, por detrás de todos os títulos e produções.

Assim surgiu a ideia do “Memórias Científicas”, espaço destinado a acolher e divulgar as histórias e memórias de professores da FURG que narram fragmentos de suas vivências e experiências no Ensino Superior, na extensão, na pesquisa, e na gestão pública.

Esperamos que gostem do material aqui compartilhado.

 

Listagem dos Memoriais Científicos:

Dra. Ana Luisa Muccillo Baisch – Instituto de Ciências Biológicas – Matéria Farmacologia

clique aqui para obter o memorial no formato PDF

Dra. Carla Amorim Neves Gonçalves – Instituto de Ciências Biológicas – Matéria Fisiologia

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Dr. Elton Pinto Colares – Instituto de Ciências Biológicas – Matéria Fisiologia

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Dr. José Henrique Muelbert – Instituto de Oceanografia

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Dr. Luiz Eduardo Maia Nery – Instituto de Ciências Biológicas – Matéria Fisiologia

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Dra. Maria Cristina Flores Soares – Instituto de Ciências Biológicas – Matéria Fisiologia

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Dra. Nisia Krusche – Centro de Ciências Computacionais

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Dr. Pablo Elías Martínez – Instituto de Ciências Biológicas – Matéria Fisiologia

clique aqui para obter o memorial no formato PDF

 

Nota: A carreira do magistério superior sofreu sua última estruturação com a regulamentação do acesso à Classe E (Professor Titular) através da Lei nº 12.772, de 28 de dezembro de 2012. (redação alterada pela Lei nº 12.863, de 24 de setembro de 2013, e da Portaria nº 982/2013, do Ministério da Educação). Para a ascensão o professor precisa ter título de Doutor, ser aprovado em processo de avaliação de desempenho e obter aprovação em defesa pública de Memorial.

 

 


Acesse aqui os pdfs das aulas teóricas do curso realizado em março/abril de 2021 voltado à estudantes de licenciaturas.

aula 1

aula 1 (continuação) e aula 2

 

 


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