Farmacologia da FURG: uma história construída entre ciência, ensino e afetos
Por Amanda Contreira Ferreira e Carla Gonçalves
A história da Farmacologia na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) é resultado do trabalho de professores, técnicos e estudantes que, ao longo de décadas, ajudaram a construir uma área marcada pela integração entre ensino, pesquisa e extensão. As memórias compartilhadas pelos professores Fernando Amarante Silva, Eli Sinnott Silva, Cristiane Barros Marcos e pela técnica Seiko Nomiyama mostram que a ciência vai muito além dos laboratórios: também é feita pelas pessoas, pelos espaços, pelos materiais e pelas experiências que permanecem vivas na memória de quem ajudou a construir essa trajetória.
A história começa em 1969, quando Fernando e Eli chegaram à então Faculdade de Medicina. Segundo Fernando, encontrou as gavetas da Farmacologia completamente vazias. Não havia roteiros de aulas práticas e eles sequer sabiam exatamente o que havia sido ensinado aos estudantes anteriormente. Foi preciso, portanto, construir a disciplina praticamente do zero.
Os dois passaram a elaborar os roteiros das aulas práticas com base na bibliografia e na formação que Fernando havia realizado em Farmacologia no Rio de Janeiro. As aulas práticas também foram implantadas em Pelotas. “1969 foi um ano extremamente difícil para nós”, relembra Fernando. “Criando tudo, tudo, tudo, tudo. Nada existia.”
Em 1970, a professora Beatriz Tejada de Oliveira passou a integrar a equipe. Fernando recorda que os três, junto com Eli, preparavam as aulas teóricas e práticas. Ao longo dos anos, outros professores passaram pela disciplina, contribuindo para sua continuidade. Entre eles, Fernando destaca Gelmer Alexandre Vargas, cuja atuação esteve ligada à realização de cursos e atividades de extensão, com a participação de profissionais convidados de outras instituições.
A pesquisa também fazia parte dessa trajetória. Eli lembra que ela e Fernando trabalharam principalmente com produtos naturais e procuravam levar para as aulas práticas os conhecimentos e as experiências desenvolvidos nas pesquisas. Para ela, essa relação entre pesquisa e ensino também contribuiu para estimular estudantes a continuar seus caminhos na investigação científica.
Outro capítulo dessa história é o CENPRE – Centro Regional de Estudos, Prevenção e Recuperação de Dependentes Químicos, que surgiu a partir das iniciativas desenvolvidas na área de Farmacologia relacionadas à prevenção da dependência química. O trabalho envolveu diferentes setores e pessoas da universidade e resultou em atividades de pesquisa, cursos, palestras e materiais educativos. Fernando lembra ainda de projetos que receberam financiamentos em diferentes níveis e possibilitaram a realização de ações no Brasil e em outros países da América do Sul.
Foi também por meio do CENPRE que Cristiane Barros Marcos teve um de seus primeiros contatos com a Farmacologia na FURG. Ao telefone, Fernando contou a ela sobre o trabalho desenvolvido no Centro e, posteriormente, durante uma conversa presencial, apresentou as possibilidades de atuação. A experiência contribuiu para sua decisão de permanecer na universidade. “Quando eu vi que não era só um trabalho, tinha um mundo aqui”, lembra Cristiane.
Para os entrevistados, preservar essa história significa cuidar de diferentes tipos de patrimônio. Entre os materiais lembrados estão os roteiros das aulas práticas, equipamentos utilizados no ensino e na pesquisa, livros, fotografias, caixas de slides, folders produzidos pelo CENPRE, vídeos, banners e outros registros das atividades desenvolvidas ao longo dos anos. Fernando também recorda uma coleção de medicamentos antigos que teria sido recuperada quando uma farmácia localizada em frente à Praça Tamandaré foi fechada. Como a própria entrevista indica que parte desses materiais ainda precisa ser localizada, o registro dessa coleção permanece também como uma tarefa de preservação.
A técnica Seiko acompanha parte desse trabalho de preservação e relata que muitos materiais continuam guardados, mesmo diante das mudanças de espaços. Entre eles estão livros, fotografias, folhetos, equipamentos antigos, projetores, filmadoras e as caixas de slides mencionadas por Cristiane. Para ela, esses objetos não devem ser vistos apenas como materiais que deixaram de ser utilizados. “Isso faz história”, afirma, ao falar sobre as pequenas caixas de slides.
A própria estante que guarda parte desses materiais ganhou significado na conversa. Para Seiko, trata-se de um móvel simbólico, que reúne livros e objetos relacionados à história da Farmacologia e do CENPRE. A entrevista também recupera a lembrança de uma cadeira giratória existente no CENPRE, associada por Fernando aos primeiros espaços de trabalho da Farmacologia.
A memória dessa construção também passa pelas pessoas. Fernando destaca a atuação de laboratoristas e colaboradores que participaram do cotidiano da disciplina. Entre essas lembranças está Laura Oyazarbal Rivera, laboratorista que trabalhou com a equipe em atividades de ensino e pesquisa, especialmente nos experimentos de perfusão de vasos mesentéricos. Fernando recorda sua experiência e sua memória visual, que lhe permitiam preparar os materiais necessários para as atividades práticas.
Quando convidados a escolher aquilo que para si representava a Farmacologia, Fernando lembrou os roteiros das aulas práticas; Eli, a logomarca do CENPRE; Cristiane destacou os slides e vídeos e o livro que registra a trajetória de Fernando e Eli; e Seiko, a estante com memórias que existe no Centro. Diferentes escolhas, mas uma mesma compreensão de que a história também permanece naquilo que atravessa o tempo e guarda as marcas de quem a construiu.
Ao falar sobre a preservação desse patrimônio, Seiko sintetiza uma ideia que atravessa toda a entrevista: “A gente é uma construção, sempre”. Guardar roteiros, equipamentos, livros, fotografias e outros registros significa, nesse sentido, preservar também as pessoas, os conhecimentos e as relações que fizeram parte da trajetória da Farmacologia na FURG.
Quer saber mais? Conheça a página www.cenpre.furg.br e visite a página do MUVIe para outras entrevistas sobre os Afetos Científicos do ICB.
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Mini Projetor utilizado pelo professor Fernando Amarante e professora Eli Silva. |
Armário Estante com livros e apostilas mencionados pelo professor Fernando e técnica Seiko. |
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Cadeira Giratória menciona pelo professor Fernando. |
Logomarca do CENPRE, escolhida como representativa da Farmacologia pela professora Eli Sinnot Silva. |
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Livro Fernando e Eli: 70 anos de ciência e muito amor, de Oswaldo José de Paula Barbosa, mencionado pela professora Cristiane Marcos. |
Caixa de Slides mencionada pela professora Cristiane.
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