Entre microscópios, memórias e genética: os afetos científicos guardados no ICB
Por Brunno Voigt Rodrigues e Carla Gonçalves
Nos laboratórios, a ciência também se constrói a partir de objetos que atravessam o tempo. Alguns continuam em uso, outros são substituídos por tecnologias mais modernas, e há ainda aqueles que permanecem guardados, quase esquecidos, mas carregados de histórias. Na Genética do Instituto de Ciências Biológicas da FURG, parte dessa memória afetiva está presente em equipamentos, instrumentos e objetos que acompanharam diferentes momentos do fazer científico de estudantes, técnicos e professores.
Entre esses objetos, um microscópio antigo ocupa lugar especial. Para quem o observa rapidamente, ele poderia parecer apenas um equipamento ultrapassado, substituído por tecnologias mais modernas. No entanto, para a professora Adriana Gava, ele representa muito mais do que uma peça antiga de laboratório. O microscópio remete à sua formação, às aulas de Biologia, ao desejo de observar estruturas invisíveis a olho nu e ao encantamento produzido pelo contato com o mundo microscópico. Antes mesmo de se tornar pesquisadora, a relação com esse instrumento já carregava curiosidade, expectativa e afeto.
Essa lembrança mostra que os equipamentos científicos não são apenas ferramentas técnicas. Eles também participam da formação dos pesquisadores. Um microscópio, por exemplo, não serve somente para ampliar uma imagem. Ele amplia também uma forma de olhar. Ensina o estudante a prestar atenção nos detalhes, a interpretar estruturas, a comparar formas, a transformar observações em perguntas. Por isso, quando Adriana viu um microscópio semelhante exposto em um museu da UFRGS, a lembrança foi emocional. Aquele equipamento despertou memórias de aprendizagem e reforçou a vontade de recuperar e dar visibilidade ao microscópio antigo da Genética da FURG.
A história material da Genética no ICB também passa por outros equipamentos que acompanharam diferentes fases do laboratório. Quando Adriana chegou à universidade, em 2003, o espaço ainda guardava instrumentos de uso anterior, como estufas, microscópios, equipamentos de fotografia e materiais ligados à revelação de imagens. Havia, inclusive, uma sala escura, utilizada para revelar filmes obtidos em microscópios com câmera acoplada. Hoje, em um tempo marcado por imagens digitais e equipamentos automatizados, esse tipo de prática pode parecer distante. Mas ela revela uma maneira de fazer ciência que exigia outro ritmo, outro cuidado e outra relação com o material produzido.
A sala escura, nesse sentido, também pode ser pensada como um espaço de afeto científico. Ela fazia parte de uma etapa em que a imagem não aparecia imediatamente na tela de um computador. Era preciso preparar, fotografar, revelar, esperar e conferir o resultado. Cada registro dependia do domínio técnico, da paciência e da experiência de quem manipulava os equipamentos. O processo era mais demorado, mas também construía uma relação muito próxima entre pesquisador, instrumento e resultado. A imagem científica não surgia sozinha: ela era produzida por um conjunto de gestos, práticas e saberes acumulados.
Muitos desses materiais, vistos fora de contexto, poderiam ser chamados de “velharias”. No entanto, dentro da memória do laboratório, eles carregam outro significado. Uma estufa antiga, uma câmera acoplada ao microscópio ou um aparelho que já não é mais utilizado não representam apenas tecnologias superadas. Eles indicam modos de trabalho, fases da pesquisa, limitações enfrentadas e soluções encontradas. Também lembram que a ciência não se faz apenas com grandes descobertas, mas com rotinas: ligar equipamentos, preparar materiais, repetir procedimentos, ajustar protocolos, cuidar do laboratório e ensinar outras pessoas a fazer o mesmo.
Com o passar dos anos, a Genética na FURG passou por transformações importantes. Professor Ralf Kersanach e professora Adriana lembram que novos projetos possibilitaram a aquisição de equipamentos mais modernos, como centrífugas, termocicladores e outros instrumentos que ampliaram as possibilidades de pesquisa. Esses equipamentos modificaram a rotina do laboratório e acompanharam as mudanças da própria Genética enquanto área científica. A chegada de novas tecnologias permitiu que determinadas etapas fossem realizadas com mais precisão, rapidez e controle.
A memória do laboratório, entretanto, não está apenas nos equipamentos. Adriana também recorda documentos, fotografias e objetos que ajudam a reconstruir essa trajetória. Entre eles estão fotografias antigas encontradas em materiais deixados pelo professor Guassenir Gonçalves Born, nas quais aparece uma antiga autoclave que ainda existe no laboratório. Há também a lembrança de uma balança de tubos de ensaio utilizada no passado e de equipamentos de centrifugação que marcaram diferentes momentos da pesquisa em Genética e Biologia Molecular.
Entre as pessoas que ajudam a contar essa história, Guassenir ocupa um lugar especial. Quando Adriana chegou à FURG, ele era professor da Genética e trabalhava com citogenética de peixes, tendo desenvolvido seu doutorado nessa área e pesquisado Hoplias malabaricus, a traíra. Adriana lembra das conversas sobre ciência e sobre os conteúdos da disciplina, da construção conjunta de exercícios e das aprendizagens que teve com ele. Sua presença também permanece em objetos, documentos e lembranças que atravessaram a história do laboratório.
Outras pessoas também participaram dessa trajetória, formando uma linha de servidores que ajudaram a construir a Genética no ICB: Guassenir Gonçalves Born, as técnicas de laboratório Mara Cristina Feltrin Dias Lopes, Bruna Felix da Silva Nornberg e Loraine Neves Moraes, o técnico Diego Moreira de Souza, além das ex-professoras Lisandra Jaqueline Robe, Gabriela Pasqualin entre outros servidores ao longo dos anos. Para Adriana, é justamente essa possibilidade de rememorar as histórias que dá sentido a um projeto como o Afetos Científicos. A memória da área não está somente nos resultados das pesquisas ou nos equipamentos que permaneceram, mas também nas pessoas que ensinaram, aprenderam, trabalharam e ajudaram a construir o laboratório ao longo do tempo.
Ainda assim, os equipamentos antigos não perdem sua importância diante dos novos, mas contam uma história de continuidade e transformação. Cada um deles corresponde a um momento do laboratório, a uma forma de produzir dados, a um conjunto de pessoas que os utilizaram e a perguntas científicas que só puderam ser investigadas por que esses instrumentos estavam ali. Eles carregam marcas de uso, de aprendizagem e de convivência e ajudam a contar uma história que não aparece apenas nos resultados das pesquisas, mas também nos gestos cotidianos do laboratório.
O microscópio lembrado por Adriana é um desses objetos que podem voltar a ocupar um lugar visível nessa história. Uma futura exposição no MUVIe poderá ser uma possibilidade de dar visibilidade a esse testemunho material da Genética, recuperando não apenas um equipamento, mas também as memórias que ele carrega.
Quer saber mais? O MUVIe reúne memoriais e outros registros da memória das Ciências Fisiológicas da FURG. Visite nosso espaço físico no Pavilhão 6 do Campus Carreiros, acesse a página do MUVIe e nossas redes e conheça mais dessas histórias.
Registros afetivos: Microscópio óptico de laboratório Carl Zeiss Jena Jenamed 2 e Professores da matéria Genética Dra Adriana Gava e Dr Ralf Kesarnach.
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O cadastro deste bem na FURG descreve como Microscópio de rotina nr. 359767 - Variant – CEDATE (Centro de Equipamentos e Materiais Didáticos, antigo órgão do Ministério da Educação (MEC) responsável por fornecer e distribuir kits de laboratório, materiais didáticos e microscópios para escolas públicas e universidades brasileiras.

