Luz, Polimerase e Memórias: O Legado de Duas Décadas de Docência do Professor Carlos Eduardo da Rosa

Por Anry Moraes de Avila e Carla Gonçalves

 

A ciência é feita de caminhos cruzados, escolhas inesperadas e afetos que resistem ao tempo. Para inaugurar a série de reportagens do projeto Afetos Científicos do ICB: cartografias do pertencer e trilhas da memória institucional, mergulhamos na trajetória do professor Carlos Eduardo da Rosa, carinhosamente conhecido como Nino. Com uma atuação que já soma quase 20 anos de docência na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) — sendo 16 deles como professor efetivo —, Nino compartilha como pequenos acasos moldaram sua paixão pela Bioquímica e quais são os elos físicos e humanos que sustentam sua memória no Instituto de Ciências Biológicas (ICB).

A relação do professor Nino com a Bioquímica começou de forma inusitada ainda durante a sua graduação. Atraído pela disciplina de Fisiologia Animal Comparada, ministrada pelo estimado professor Danilo Wilhelm Filho, Nino interessou-se pelos estudos com enzimas antioxidantes. Esse entusiasmo o levou a buscar um estágio no grupo de pesquisa do professor Danilo. Contudo, foi sob a orientação direta do professor Carlos Soares, pesquisador de Bioquímica vinculado à Medicina na época, que Nino de fato mergulhou na área. Trabalhando com a caracterização de proteínas do sangue de peixes, ele passou a se identificar cada vez mais com a Bioquímica. A aproximação com a área consolidou-se quando ingressou no mestrado e no doutorado e começou a dar aulas como professor substituto na disciplina, dando início a duas décadas de dedicação ao ensino e à pesquisa. Mesmo seguindo sua trajetória na Bioquímica, Nino conta que continua gostando também da fisiologia animal.

Ao refletir sobre a preservação da memória institucional, o professor aponta uma realidade da Bioquímica: não conhece uma coleção física própria da disciplina ou um acervo especificamente organizado para preservar sua história. Para Nino, parte importante dessa memória está nas pessoas e nos relatos de quem ajudou a construir a matéria no ICB. Nesse sentido, o Museu Virtual do Ensino de Ciências Fisiológicas da FURG (MUVIe) também constitui um espaço de preservação que pode abarcar diferentes testemunhos materiais relacionados às áreas do Instituto.

Entre os “testemunhos de memória” da Bioquímica, Nino aponta pessoas que podem ajudar a reconstruir essa trajetória: o professor Hilário da Rosa Martins, atualmente aposentado, que era o docente mais antigo da área quando Nino ingressou na universidade ainda como estudante de pós-graduação. Naquela época os professores José Maria Monserrat e Luis Fernando Marins e o técnico Ricardo Rodrigues integravam a Bioquímica. Nino menciona ainda Juliano Zanette e Juliane Ventura Lima, que vivenciavam aquele momento como estudante de pós-graduação e estagiária de graduação, respectivamente, hoje também professores da matéria. Para Nino, são essas pessoas, suas lembranças e os relatos sobre o caminho percorrido pela disciplina que ajudam a preservar a história da Bioquímica no ICB.

 

Mesmo sem uma coleção física organizada especificamente para a disciplina, a tecnologia e a prática laboratorial deixaram marcas materiais na história da Bioquímica. Questionado sobre qual objeto preservaria para a história caso o ensino e a pesquisa passassem por uma transformação radical, o professor Nino elegeu dois grandes marcos de afeto científico que dividem espaço no laboratório. O primeiro deles é um espectrofotômetro muito antigo, herdado de sua época de mestrado. Embora antigo, o equipamento continua em pleno funcionamento e é considerado um patrimônio coletivo, tendo sido utilizado por praticamente todos os docentes, pós-graduandos e alunos de graduação em análises enzimáticas. Para Nino, sua importância também está na trajetória que carrega: boa parte da produção da área passou por aquele equipamento.

O segundo item escolhido é a máquina de PCR (Reação em Cadeia da Polimerase), instalada na sala do professor Luiz Fernando. Esse equipamento, trazido originalmente do laboratório do professor José Alberto Levy Sabaj, do Instituto de Oceanografia (I.O.) — que teve papel importante na orientação de Luis Fernando —, tornou-se um importante marco de outra vertente que se desenvolveu na área: a biologia molecular. Juntos, o espectrofotômetro e a máquina de PCR representam dois importantes marcos da Bioquímica no ICB, unindo o ensino prático à pesquisa e registrando o trajeto percorrido por docentes e estudantes que, através da ciência, deixaram ali suas próprias histórias.

Quer saber mais? O MUVIe reúne memoriais e outros registros da memória das Ciências Fisiológicas da FURG, incluindo uma máquina de PCR doada pelo professor Luis Fernando Marins, da Bioquímica. Visite nosso espaço físico no Pavilhão 6 do Campus Carreiros, acesse a página do MUVIe e nossas redes e conheça mais dessas histórias.

 

 

Foto: Espectrofotômetro do Laboratório de Bioquímica Funcional, ainda operante, que acompanhou gerações de trabalhos de pós-graduação e ensino.