A História da Ecologia: Memórias que marcam.
Por Vitória Cunha e Carla Gonçalves.
Essa história começa com o professor Cleber Palma Silva, atualmente professor titular, há 38 anos atrás, quando entrou para a FURG, sendo o único professor que existia naquele momento na área. Ecólogo de formação, graduado pela Universidade Estadual de São Paulo, mestre em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor na mesma área na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A professora Edélti Faria Albertoni é egressa da FURG, atualmente também professora titular há 26 anos. É Oceanóloga e mestre pela UFRGS e doutora pela UFRJ, ambos em Ecologia. A professora em sua trajetória na FURG foi bolsista de iniciação, professora voluntária e passou a professora efetiva do ICB a partir de 2008. O técnico Cláudio Trindade, é Biólogo de formação, atuando no laboratório de Limnologia do ICB, que faz parte da matéria Ecologia desde 2010. Ingressou na FURG em 2001, onde realizou graduação, mestrado e doutorado em Biologia de Ambientes Aquáticos Continentais, contando hoje com 16 anos de atuação profissional.
Quando o professor Cleber chegou na FURG, a Ecologia não tinha espaço adequado para a realização dos trabalhos: “há 38 anos atrás não tinha um espaço, um laboratório, não tinha equipamento nenhum, nem um local para estabelecer alguma atividade”, relembra. Suas lembranças iniciais são dos primeiros espaços ocupados ainda no pavilhão seis, uma pequena sala com uma pia de inox para a lavagem das amostras, lugar que presenciou o primeiro trabalho executado, o primeiro trabalho orientado pelo professor. O professor ressalta o processo de crescimento da matéria, de ocupação de espaço, sair da pequena sala, para ir para um depósito de reagentes que continha com um passivo ambiental. Quanto aos primeiros equipamentos o professor recordou do oxímetro de bancada, equipamento utilizado para medir o oxigênio da água e avaliar a qualidade da água de rios e lagos em estudo, e um colorímetro, usado para medir concentrações de substâncias na água. Estes foram os primeiros instrumentais, resguardados até hoje na Ecologia.
O técnico Cláudio citou a primeira estufa do laboratório: “foi útil nos primeiros estudos, principalmente com macrófitas aquáticas, pois precisávamos secar as plantas para quantificar a biomassa”, relembra. Hoje em dia, por ser antiga tem a função de secar vidrarias. A professora Edélti relembrou de um microscópio estereoscópico que foi conseguido pelo primeiro projeto de pesquisa.
O verdadeiro marco na trajetória da matéria foi o projeto de construção do bloco cinco por volta de 2004, o prédio representa um trabalho extenso dos servidores, e a partir desse momento a matéria tem seu espaço próprio e permanente. A matéria evoluiu, agora podia se ter mais equipamentos, que ainda estão em uso, os projetos de pesquisa ficaram maiores.
É interessante destacar a memória do professor Cleber quanto à conquista do espaço como um patrimônio, porque no conceito de patrimônios de ciências e tecnologias todo o espaço físico, construções físicas que são destinadas para a ciência são consideradas patrimônio. Essa é a percepção da matéria, de que a própria luta para conseguir um espaço com uma bancada para começar a fazer pesquisa, seu próprio espaço, em si já é um patrimônio da área.
Quando a professora Edélti rememora a primeira lupa que foi conquistada pelo seu primeiro projeto aprovado, podemos evidenciar que o objeto em si muitas vezes sozinho não conta tudo de sua história, é preciso o imbuit dessa memória do indivíduo que interagiu/ interage com ele, para complementar seus significados. É aí que a visão patrimonial ganha sentido, nos afetos atribuídos ao objeto.
Ainda existem os patrimônios imateriais da matéria que relacionam com as histórias das pessoas que fizeram parte da matéria. Começando pelos professores após a chegada do professor Cleber em 1988, chega em 1993, o professor Antônio Libório Filomena transferido do Instituto de Oceanografia para o então Departamento de Ciências Morfobiológicas (departamento que originou o ICB). Em 2008 a professora Edélti Faria Albertoni foi redistribuída da UFPel. Em 2010 o professor Filomena se aposenta e o professor Leandro Bugoni se transfere vindo da UFPel para a matéria. Em 2013 ocorre novo concurso para a matéria quando ingressou a professora Fabiana Schneck.
Para o técnico Cláudio, algumas pessoas deixam lembranças importantes para a história da área. Por estar presente no laboratório desde o seu segundo dia de graduação, viu muitas pessoas deixarem marcas, tanto pelo trabalho realizado quanto pela amizade que construíram. Mas o que representa de verdade um patrimônio imaterial e que sempre será lembrado de maneira positiva, para Cláudio são os professores Cleber e Edélti, pois em suas próprias palavras: “sempre tiveram uma preocupação de formar os alunos não só como profissionais mas também como pessoas, que pudessem ser boas pessoas no contexto não só acadêmico, mas na comunidade (...)”. Sem deixar de lado os professores que chegaram depois e seguem contribundo para o crescimento da área, o técnico cita o professor Leandro Bugoni que traz toda sua experiência com Ecologia de aves, e a professora Fabiana Schneck com sua pesquisa voltada para a importância ecológica dos riachos. “Porque cada vez que um professor se associa e chega com uma linha nova, nós temos uma nova área de trabalho e aí começamos a desenvolver estudos e fazer saídas de campo e se envolver com alunos”, fala com emoção.
As lembranças de saídas de campo do técnico são inúmeras. Em 2008, “tiveram os embarques no Canal São Gonçalo com a lancha oceanográfica Larus. Foram dois anos coletando no canal São Gonçalo, a embarco da Larus, também tem muitas histórias de embarques, de dormir na lancha, de trocar as equipes, de entrar água no inverno, no verão (...)”, relembra. Os projetos de mestrado eram realizados em diversos locais como Taim, Lagoa Caiobá, Lagoa Mirim.
A Ecologia possui uma coleção didática científica de invertebrados aquáticos, com 26 anos de existência, pois iniciou com a professora Edélti. A coleção é de espécies da planície costeira sul, organismos presentes em banhados, rios, arroios, lagos, e que serve à pesquisa e ao ensino. Muito utilizada na produção de dissertações do curso de Pós-graduação em Biologia de Ambientes Aquáticos Continentais e teses de doutorado, mas nunca foi usada para extensão. O laboratório e sua coleção são abertos à comunidade, porém por questões técnicas de preservação, a coleção precisa ser reorganizada. Os professores esperam que em breve com a transferência para o Centro de Biodiversidade Subtropical, a coleção possa ser exposta para toda a comunidade de forma mais atrativa.
Para finalizar, quando questionado aos entrevistados qual objeto eles guardariam para preservar a história e manter a essência da Ecologia, professora Edelti elencou: “um microscópio estereoscópio e um microscópio óptico, para identificação e descoberta de novos organismos”. O professor Cleber mantendo a coerência com o início da consolidação da matéria, mencionou uma sonda multiparâmetros, já que a matéria começou com um oxímetro apenas. Cláudio afirma que todo limnólogo precisa de um balde com uma cordinha: “se houver uma transformação no mundo e eu conseguir sair com um balde e uma cordinha, acho que eu consigo dar uma aula de limnologia para qualquer um”, conclui.
Quando alguém passa por um laboratório de ensino com um conjunto de lupas enxerga equipamentos, mas quando passa por um expositor onde pode ser admirada primeira lupa de uma unidade, ou o primeiro oxímetro, temos um testemunho concreto da história e de quem está por trás dela, das lutas pela melhoria do ensino e da pesquisa de uma universidade. São essas entrelinhas que podemos chamar de afetos científicos, porque contam além da importância da ciência. Anunciam os vínculos, o sentimento de pertença e as afetividades, na relação entre os pesquisadores, ciência e o objeto.

