Memórias que conectam ciência e história: os afetos científicos da Biofísica na FURG
Por Milena Coutinho e Carla Amorim Neves Gonçalves
A história da Biofísica na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) é construída não apenas pelo ensino e pela pesquisa, mas também pelas pessoas, pelos equipamentos e pelas memórias que marcaram a trajetória da área. Ao conhecer as lembranças de seus docentes, percebemos que a ciência também é feita de afetos, pertencimento e compromisso com a preservação da história construída ao longo dos anos.
Participaram da entrevista as professoras Ana Paula Votto, Daza Filgueira e Marta de Souza, além do professor Robert Boyle, todos vinculados à matéria de Biofísica do Instituto de Ciências Biológicas (ICB). Ana Paula Votto e Marta de Souza atuam na FURG desde 2010, Daza Filgueira desde 2012 e Robert Boyle desde 2009. Ao falarem sobre sua relação com a área, os docentes destacaram como a Biofísica está profundamente ligada às suas trajetórias acadêmicas e profissionais. Daza recordou que foi nessa área que se reconheceu como pesquisadora e que atualmente ocupa a vaga anteriormente pertencente à sua orientadora, a professora Gilma Santos Trindade. Ana Paula Votto também ressaltou a influência de Gilma em sua formação, durante o mestrado e o doutorado, e recordou o início de sua carreira docente na Biofísica, ainda como professora substituta.
Entre os patrimônios científicos materiais, os entrevistados destacaram equipamentos que fizeram parte da história do ensino da disciplina. Um deles é um boneco de isopor utilizado em demonstrações sobre dipolo em volume condutor e eletrocardiografia. A prática envolvia originalmente o uso de sulfato de cobre, mas foi interrompida devido aos riscos associados à substância. Também foram lembrados a Câmara de Ussing, construída pelo professor Jorge Alberto Castro, pioneiro da matéria, os eletrodos empregados nas aulas de eletrocardiografia e um antigo eletrocardiógrafo que continua em funcionamento. Um pHmetro e um radiômetro de radiação ultravioleta, atualmente sem funcionamento, também integram essa memória. O radiômetro permanece sobre a geladeira do laboratório de cultura celular.
Os equipamentos estão distribuídos entre armários e laboratórios, e algumas peças foram reunidas em um pequeno espaço organizado pelo técnico Márcio Oliveira. A preservação desses objetos permite recordar formas de demonstrar fenômenos físicos e fisiológicos que fizeram parte da formação de estudantes ao longo dos anos. Cada instrumento guarda vestígios de um modo de ensinar e aprender ciência, revelando mudanças nas práticas de ensino e nas experiências realizadas nos laboratórios.
Mas a memória da Biofísica não está apenas naquilo que permaneceu. O tubo de raios X, utilizado em praticamente todas as aulas, foi lembrado pelos docentes como uma verdadeira relíquia. Embora já não esteja disponível, sua perda representou uma ausência significativa para a história da área. Ao imaginar qual objeto gostariam de preservar para a história do ensino e da pesquisa em Biofísica, os professores escolheram justamente esse equipamento. Sua lembrança evidencia que o patrimônio científico também é constituído por objetos que desapareceram, mas permanecem vivos na memória daqueles que conviveram com eles. Preservar essa memória é também reconhecer a importância dos processos de salvaguarda do patrimônio científico.
Entre as lembranças mais significativas está a figura do professor Jorge Alberto Castro, conhecido carinhosamente pelos colegas como Professor Pardal, em referência ao personagem da Disney conhecido por suas invenções. O apelido fazia alusão à criatividade do professor e à sua habilidade de confeccionar instrumentos e desenvolver experimentos para as aulas práticas, especialmente aqueles relacionados à eletrofisiologia. Sua trajetória representa a contribuição de docentes que, além de ensinar conhecimentos científicos, criavam recursos e experiências para aproximar os estudantes dos fenômenos estudados.
A história do professor Jorge Castro e da professora Gilma Santos Trindade, assim como a de outros docentes pioneiros das Ciências Fisiológicas, pode ser conhecida no documentário Pioneiros das Ciências Fisiológicas, disponível no canal do MUVIe no YouTube.
Outras lembranças remetem às antigas aulas realizadas com pele de rã, práticas que fizeram parte da história da disciplina. Nesse contexto, os entrevistados recordaram Dona Regina Corrado, responsável pela preparação dos animais, e, posteriormente, o técnico Fábio Moreno, que assumiu essa atividade. Essas memórias revelam que as aulas práticas dependiam de uma rede de pessoas e saberes nem sempre visíveis nos registros formais da universidade. A preparação dos materiais, a construção dos instrumentos e a organização dos experimentos também integravam o cotidiano do ensino e da produção do conhecimento científico.
Os docentes também destacaram a influência de antigos professores e orientadores na formação acadêmica dos atuais integrantes da área. São vínculos que atravessam gerações e contribuem para a continuidade de conhecimentos, práticas e modos de compreender a ciência. A memória da Biofísica, portanto, não se limita aos equipamentos: ela também é constituída pelas relações entre professores, técnicos, orientadores e estudantes, cujas contribuições se entrelaçam na construção da identidade da disciplina na FURG.
Os entrevistados consideraram que o hall de entrada do prédio do ICB poderia ser um espaço adequado para exposições temporárias e itinerantes, permitindo que estudantes e visitantes conhecessem melhor a trajetória da Biofísica. Estantes e expositores poderiam apresentar equipamentos históricos e despertar o interesse da comunidade pelas memórias da área. Para os docentes, mostras periódicas seriam uma maneira de dar visibilidade a esses objetos e às histórias que carregam.
Embora os materiais estejam distribuídos entre laboratórios e armários, sua preservação já contribui para manter viva parte dessa trajetória. Nesse processo, destaca-se o trabalho do técnico Márcio Oliveira, que guarda equipamentos antigos e organiza pequenos espaços de memória. Esses cuidados cotidianos ajudam a conservar vestígios da história da Biofísica e a reconhecer o valor de objetos que fizeram parte do ensino e da pesquisa na universidade.
A entrevista demonstra que a memória da Biofísica não está apenas nos equipamentos preservados, mas também nas pessoas, nas experiências compartilhadas e nos vínculos construídos ao longo das décadas. Registrar essas histórias é uma forma de valorizar o patrimônio científico da FURG e reconhecer que a história da ciência também se constrói nos espaços cotidianos do ensino, nas invenções que marcaram as aulas práticas e nas experiências que permanecem na lembrança de quem as viveu. Ao reunir objetos, saberes e afetos, essa memória permite que novas gerações conheçam não apenas o que se ensinava, mas também as pessoas e as histórias que contribuíram para construir essa trajetória.
Professoras Ana Paula Votto, Daza Filgueira e Marta Souza com a acadêmica Milena Coutinho.

