Entre lâminas e micrótomos: os afetos científicos da Morfologia

por Hemilly Larroza e Carla Gonçalves

Existe afeto em um laboratório de histologia? Existe sim, e ele mora nos lugares mais inesperados: no ranger de um micrótomo antigo que ninguém mais sabe consertar, no cheiro forte de xilol que já não incomoda mais quem passou anos respirando, na cachorrinha que adorava o cheiro dos reagentes que insistia em visitar o laboratório com o seu dono professor aposentado. Foi isso o que encontramos ao entrevistar cinco pessoas que constroem, todos os dias, a matéria Morfologia do Instituto de Ciências Biológicas da FURG: as professoras Cristina Odone e Ana Paula Horn, o professor Marcelo Alves Vargas, e as técnicas Miriam Da Silva Bicho e Sabrina Pereira.

Caminhos que se cruzam por afeto

Cada um chegou à Morfologia por um caminho diferente, mas todos falaram da mesma coisa: a área não foi só escolhida, ela foi sentida. Cristina Odone entrou na FURG em 2013 e enxergou na disciplina uma extensão natural de sua pesquisa com tubarões, raias e quimeras, um campo pouco explorado que ela cultiva desde 1998. Ana Paula Horn, fez o seu mestrado e doutorado em Bioquímica, garante que desde cedo já sabia que não iria trabalhar na área, porém em sua pesquisa trabalhou muito com histologia, e foi fazendo lâminas e cultura de células que ela acabou chegando na Morfologia, como ela mesma diz, "meio que sem querer".

Marcelo Alves Vargas tem uma relação ainda mais antiga com o espaço: foi aluno da FURG em 1999, teve como orientadores pesquisadores que são referências mundiais em neurociência. Já as técnicas Miriam da Silva Bicho e Sabrina Pereira se conheceram ainda na graduação, como colegas de turma do professor Antônio Sérgio, e reencontraram a Morfologia anos depois, quando prestaram concurso para técnicas, não por vocação inicial, mas por já conhecerem as pessoas e o ambiente. Como resume Sabrina, foi "uma escolha afetiva, pelas pessoas".

O que sobra do tempo: micrótomos, microscópios e caixas de madeira

Se existe um objeto capaz de resumir a memória material da Morfologia, é o velho micrótomo que ainda hoje ocupa um canto do laboratório. Passado de geração em geração de docentes e técnicos, ele guarda histórias de ajustes secretos que só a antiga técnica Inês sabia fazer, e de gerações de estudantes, entre eles a própria Miriam, que aprenderam histologia cortando tecidos com ele.

Ao lado do micrótomo, um microscópio antigo, hoje sem funcionamento, foi presenteado à professora Cristina pelo professor Dionísio, um dos nomes mais lembrados por toda a equipe. Dele também vieram caixas de madeira com lâminas de desenvolvimento embrionário de rato e galinha, apostilas nunca publicadas e um livro raro de Embriologia. Na entrevista ficamos sabendo que a cachorrinha do professor Dionísio o acompanhava, e brincavam que ela era adicta ao cheiro de xilol. Durante uma reorganização do espaço, em 2012, a equipe ainda encontrou navalhas de metal diferenciado, vidros antigos e um aparelho de injeção de vidro, que infelizmente se perdeu no transporte.  Esses achados carregam também a memória de um tempo em que a segurança no laboratório era outra: sem luvas, sem máscaras, sem capela para muitos procedimentos. A mudança de cultura em relação aos equipamentos de proteção individual foi lembrada por todos como um ganho importante, assim como a evolução nos protocolos éticos de uso de animais.

Nem toda memória do espaço traz boas recordações. Ainda no campo da biossegurança, a equipe recordou episódio recente, em que um vazamento de gás no Pavilhão 6 em um laboratório desocupado, poderia ter provocado grave acidente. Foi um alerta que reforçou a necessidade da instalação de outros mecanismos de segurança, como uma porta corta-fogo, já que os laboratórios da matéria dividem espaço com a área acadêmica do prédio, o que aumenta a circulação de pessoas.

Quando perguntados sobre coleções que poderiam compor uma exposição da Morfologia e dos temas trabalhados, Cristina Odone destacou três: a coleção de Condrictes, iniciada ainda nos anos 1970 hoje sob sua curadoria, em processo de digitalização. Também uma coleção de materiais que pertenceram ao seu orientador Dr.Carolus Vooren, e o laminário histórico do próprio laboratório de Morfologia, embora de uso restrito às aulas, configura coleção didática que é fonte constante de curiosidade dos estudantes. Esta coleção de lâminas deu origem a um projeto de extensão que hoje produz lâminas sob demanda para escolas da região, no lugar de simplesmente repassar material excedente.

Ao serem provocados sobre qual item eleger, em um cenário hipotético de digitalização total do ensino e da pesquisa, o grupo não hesitou: micrótomo e microscópio seguem insubstituíveis. Para a equipe, nenhuma simulação virtual reproduz a experiência de manusear a lâmina, ajustar o foco e compreender, na prática, a escala e a estrutura dos tecidos. Uma habilidade que, dizem, segue sendo insubstituível tanto para quem ensina quanto para quem pesquisa.

 

Micrótomo e caixa com navalha, equipamentos dos mais antigos da Morfologia.